sexta-feira, 15 de maio de 2009

Crônica do Fernando Sabino

O gato sou eu
(fernando Sabino)
- Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.
- Continuou dormindo.
- Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.
- Que espécie de gato?
- Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.
- A que você associa essa imagem?
- Não era uma imagem: era um gato.
- Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?
- Associo a um gato.
- Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.
- Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.
- Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.
- Uma projeção do senhor?
- Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
- Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.
- Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.
- Em quem o senhor está falando?
- Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
- Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
- Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.
- Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?
- Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.
- Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
- Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.
- E eu insisto em dizer: não é.
- Sou.
- Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.
- Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…
- Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?
- É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
- Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
- Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.
- Já disse que o gato sou eu!
- Sou eu!
- Ponha-se para fora do meu gato!
- Ponha-se para fora daqui!
- Sou eu!
- Eu!
- Eu! Eu!
- Eu! Eu! Eu!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Muito Prazer

Na aula de ontem, nossa amiga Angela Nabuco, fez a gentileza de trazer um livro de um escultor indiano que ela gosta muito. Quem não teve a oportunidade de ver o livro, aqui vai uma sugestão é só clicar Anish Kapoor

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O aniversariante


O pintor Salvador Dali faria 105 anos hoje, 11 de maio.

O professor o citou em sala de aula, no nosso" índice remissivo". Falou também sobre um quadro de uma mulher na janela, que eu acho que era o que está reproduzido acima. Quando ele falou sobre o quadro pensei que era um desenho em sépia de Gala na Janela, mas acho que me enganei.
Deixo o endereço de um video no youtube. O aniversariante aparece num programa tipo "Silvio Santos". http://www.youtube.com/watch?v=iXT2E9Ccc8A
OBS: Não consegui colocar o video aqui nesta postagem, mas para assistir, é só colocar o endereço acima que o link vai direto ao vídeo no Youtube. Márcia

sexta-feira, 8 de maio de 2009


O "imponderável" e as Torres Gêmeas

Em boca fechada não entra mosca. Acho que este tem sido o provérbio que mais ouço nesta vida e nem por isso "dou ouvidos" .
Não é raro me arrepender de falar demais! Não acredito em horóscopo, o que não me impede de dar uma espiadela, quase que diariamente, no que os astros reservam para mim. E, quase sempre os astros aconselham-me a ser mais reservada, a ouvir mais e falar menos.
Minha família acostumada aos meus palpites, não faz nada sem perguntar primeiro o que eu acho, e se por acaso ninguém perguntar, não tem problema eu dou minha opinião e como se diz: “meto o bedelho onde não sou chamada”.
Foi em junho de 2001.
O marido perguntou o que eu achava de viajarmos para os Estados Unidos com as duas crianças.
Iríamos primeiro à Disney e depois seguiríamos para Nova Yorque onde mora minha irmã.
Eu poderia ter dito apenas sim, ou qualquer coisa como oooobba! Vamos sim.
Mas não, não posso me furtar a falar além da conta. Disse ao marido que se, naquele momento tínhamos o dinheiro, o tempo e a saúde aquele era o momento certo, já que não sabemos o dia de amanhã.
Assim fizemos. Passeamos bastante com as crianças pela Disney.
Se eu, falo demais, o marido se diverte um pouco demais para o meu gosto. Depois da cansativa Disney voamos para Nova Yorque.
Eu não conhecia a "Big Apple" e o marido resolveu fazer as honras da casa, mostrando tudo o que podia, no menor espaço de tempo.
Organizado, geralmente ele leva um roteiro que mais parece uma tese de mestrado. Não fica satisfeito enquanto não "tica" todos os pontos turísticos assinalados.
Saíamos de casa muito cedo e chegávamos bem tarde, com as crianças exaustas. Eu ainda tinha que dar banho e comida para as duas meninas, enquanto ele fazia as contas e o roteiro do dia seguinte.
Perdão, sei que este texto está ficando cansativo, como a viagem, eu avisei que falo demais. Se o leitor quiser dar uma paradinha, tomar um cafezinho e se ainda assim quiser voltar, eu espero.
Fazia um dia lindo de primavera em NovaYorque, no céu azul só havia aqueles risquinhos brancos dos rastros deixados pelos aviões.
Um excelente dia para um passeio de ferry, para mostrarmos as crianças a Estátua da Liberdade. Depois ainda, andamos pela Broadway, pegamos metrô, ônibus, subimos o Empire Estate e finalmente, fomos descansar ao pé do World Trade Center.
Havia um violinista tocando uma linda música e eu achei que era uma ótima maneira de terminarmos aquele dia tão movimentado.
O marido ainda não estava satisfeito e quis saber o que eu achava dele subir as torres gêmeas para ver o entardecer...
Ele já tinha ido a NovaYorque, alguma vezes e nunca subiu às torres, o dia estava lindo e além do mais tinha comprado um daqueles passes de turista que dava direito a visita. Eu não quis demonstrar que estava exausta, doida para pegar o trem de volta, e ao invés de, falar um não redondo, ponderei:
- Querido, até que seria uma boa, mas vejo que as crianças estão exaustas. Além do mais, esta não é a ultima vez que você vem a Nova Yorque, deixe para a próxima. Estas torres estão aí há duzentos mil anos (exagerei) quando você vier, de uma próxima vez, você sobe.

A festa na casa do compadre

Pessoal, coisa ótima, esse blog! Aí vai a minha primeira contruibuição, acreditem ou não, fato verídico no interior mineiro:

A manhã já ia alta, na estrada de terra.
Marinho arreou o cavalo e botou roupa arrumada.
Saiu de galope, chicotada no lombo do bicho, que zuniu estrada afora, rumo à cidade.
Passou por um carro apressado, que levantava pó.
Depois que a poeira baixou, pôde enxergar claro, o céu azul dos tempos de seca, o capim amarelado de sol, tudo esturricado, e o silêncio ocupando tudo.
De vez em quando ouvia o pio da siriema, como um lamento, melodiando longe, no pasto.
O cavalo agora pisava macio, passo compassado, marchador: - Vale um troco, esse danado!
Marinho ia abrindo e fechando as porteiras, isso era de lei.
Quando passava por outro cavaleiro, levantava o chapéu, e o cumprimento vinha respeitoso: - Sim sinhô! E a resposta: - Sim sinhô, sim!
De um casebre na beira da estrada saíram dois cachorros, latindo e correndo atrás do cavalo, mostrando serviço ao dono: - Cachorrada sarnenta, que mania besta, sô!
Meio caminho andado, Marinho apertou os olhos para enxergar longe: parecia um punhado de gente no terreiro em frente à casa do compadre.
O cavalo foi chegando perto e confirmando a pequena multidão. Era tanta gente que não cabia na casa, e quem sobrava se espalhava pelo terreiro, debaixo do sol, que nenhuma nuvem atenuava. Crianças corriam entre os carros estacionados no pátio.
- Um festão! Pensou. - E eu de fora!
Homem enorme que era, Marinho foi chegando e se fazendo anunciar pelo vozeirão. De forma a ser ouvido de dentro da casa, berrou de cima do cavalo, antes mesmo de apear:
- Êta farra boa, o povo está com os olhos inchados de tanto beber! Está com raiva de mim, compadre? Não vem me receber?
Foi então informado por uma voz que veio, baixinha, do meio do povo: - É enterro, seu moço, o compadre morreu, e os olhos estão inchados, mas é de tanto chorar!
Pego de surpresa, a resposta saiu num susto, automática, de rompante: - Pois então, meus parabéns!
Inclinou o braço para o lado, levando a rédea, e atrás dela o cavalo.
Sumiu depressa na curva fechada, onde ninguém mais o poderia ver.
A não ser o sol, que já estava quase a pino na estrada de terra.

Angela Nabuco
. Bom dia. Estou postando para avisá-los que fiz uma tremenda confusão. Tenho dois bloggers. O pessoal, "http://deixaqueimar.blogspot.com/" e o com meus textos "http://ocarbonizado.blogspot.com/", só que só consigo me logar a este blogger com um outro blogger que errei o e-mail e deletei. Enfim, já que estou postando, vou crial coragem e pôr um texto meu aqui.

Nuances da morte

Paulie: ânsia, que ânsia sufocante que se apodera de mim! Sentir-te, até perder-me em mim; cheirar-te, até que nenhuma outra fragrância se oponha à sua; comer-te, até confundir nossas entranhas; beijar-te, até que roubes o rubor da minha face ensandecida...
Marie: e, depois que o mundo já não for mundo e minha alma já não for minha, estarei perdida entre brancas nuvens serenas ou o queimar lancinante que nos faz renascer – punição eterna – ou, quem sabe, espectador da própria tragédia. Que dirá então, meio termo? Celas cinza, lisas, enfadonhas, apáticas; onde fica-se surdo dos pensamentos e cego dos sentidos...Quem há de suportar...?
Sophie: ergo-me; caio; ergo-me novamente – presa estou – enclausurada, acorrentada; ferida. Andei pelos três estágios da Morte, passei por cobras com olhos de rubi e águias de ouro. Fiz o que foi-me ordenado e continuo sem a resposta – valerá a pena?
Paulie: o que me prende aqui? Que vínculos ainda há? E, por quem meu coração ainda clama? Desejo, anseio, grito até perder a voz; nada de decidir-me. O erro, cruel possibilidade, amarra-me, mais e mais. Ai de mim!
Marie: como pode dor tão cruel apoderar-se de mim? Deitar-me-ei.
Sophie: viajei e vi diversos caminhos, interligados e infinitos... Conheci a dor, conversei com a solidão, beijei a angústia; pelo outro lado, abracei o alívio e despedi-me da culpa. Voei por altas montanhas e, vendo a vida por cima, blasfemei Deus. Mergulhei em um rio transparente que, sem nada pedir em troca, curou-me os flagelos; a bondade não se extinguiu por completo. No balanço final, quando o vento perguntou-me se nada havia a perder, emudeci; perdi a voz.
Marie: levante-se, levante-se, ainda há esperanças!
Paulie: deixe-me, vá embora! Perdi-me nas minhas nuances, apaguei-me no meu próprio sangue e, no bombear do meu coração, insensível sou a qualquer minúscula gota de vida. Apunhalar-me-ia, caso houvesse certezas...
Sophie: perdi, por fim, a imaginação e o vazio e a apatia apoderam-se de mim. Nada mais vejo nos meus delírios e, com o último gole, entregar-me-ei ao mistério!
Marie: sim, apenas um gole! Veneno este tão doce que, finalmente, trará a paz.
Paulie: Liberto-me! Voarei pelo infinito; livre! Destruindo a mim, destruirei também os incontáveis demônios que me fazem definhar e, por mim, estarei só!

. Uffa, postei, rs.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Aqui vamos nós!

Este é o marco zero de um blog que, espero, deverá ter vida longa. Registrará os (des)pensamentos e (des)reflexões das dez pessoas que participam da Oficina da Crônica, ocorrida na Estação das Letras, Rio de Janeiro, entre 1 de abril e 24 de janeiro.
Caros oficineiros, usem e abusem desse espaço, publiquem suas (des)crônicas e quaisquer outras ocorrências, imponderáveis ou, não que lhes ocorrerem.
Sem o imponderável, o ato de escrever nunca acompanhará o movimento dos barcos (referência à clássica canção de Caetano Veloso; os que não conhecem podem recorrer ao tio Google).
Bem-vindos a bordo e, acreditem, tê-los como companheiros de bordo nessa nau sem rumo é um privilégio para mim.
Abraço grande,
Rogerio Menezes/Antonio Martiniano